Com aquilo que podemos chamar “pano de fundo”, que está no primeiro capítulo da semana passada, temos a concepção do Sonho. Na praia do rio Tietê em seu estado natural, ao som do seresteiro, iluminados por uma fogueira na noite, o Cometa os inspirou. E a Utopia brotou na mente daqueles trabalhadores, como uma semente de uma árvore gigantesca que é depositada no solo fértil do velho Guaré, e no mesmo instante começa a despontar.
Guaré era o nome tupi para a área onde hoje estão boa parte da Barra Funda e todo o Bom Retiro, e foi traduzido para o português como “Terras Alagadas”, embora para os índios quisesse dizer muito mais que isso. Guaré era um território de caça, um espaço estratégico para a sobrevivência das aldeias que perambulavam pelo grande planalto do vale do rio Tietê. E quando Anchieta chegou com um povo que havia sido subjugado pelos Guaianazes na borda do campo, na vila de Santo André, trazendo os algozes pelo caminho ao longo do Tamanduateí – e eles se instalaram no espigão do Caaguaçu – os Tupinambás eram liderados por Caauby e Tibiriçá, na colina que servia de fortaleza para duas grandes aldeias, e guardavam os rios no entorno que desciam o espigão, mas sobretudo a grande Várzea que se estendia ao norte. Pois ali era um imenso jardim de caça e coleta, mas não se arriscavam a manter roçados, preferindo cultivar no alto da colina-fortaleza (a Praça do Patriarca e o entorno da Praça da Sé são os descampados reminiscentes destas pequenas lavouras de susbistência). No entanto, guardavam o jardim do Guaré atentamente.
Com o tempo, os índios foram sendo espoliados, e o grande jardim passou a ser uma colcha de retalhos de chácaras, e em tempos mais próximos passou a ser cortado por ruas, em sua parte mais alta, onde a água do rio não alcançava. E essas ruas passaram a formar um bairro, distante do centro da vila, que sempre foi a colina. Os ecos do velho Guaré e de seu esplendor natural de imenso Jardim inspirou um novo nome, e passou a ser chamado de Bom Retiro, pois era de fato o que o nome indicava. E ali foram instaladas as estações de trem, o parque da cidade, a escola politécnica, a escola de farmácia, os estabelecimentos de serviços variados, e a hospedaria dos imigrantes, que chegavam aos borbotões. Nessa época o idioma tupi, chamado de nheengatu, a língua velha, fora substituído pelo sotaque ítalo-português, que passou a ser característica dessa cidade-monstro no século que começava. Tudo isso é apenas para dizer que foram as pessoas deste pujante bairro de periferia que sonharam. E nada disso é por acaso.
Essas pessoas eram trabalhadores, e embora não se pudesse dizer que havia uma “classe média”, pois a sociedade era marcadamente dividida por barões e patrões, de um lado, e do outro por quem devesse vender a força de trabalho para sobreviver, muitos deles eram em certa medida prósperos. Entre eles havia o pintor de paredes, Antonio Pereira, que trabalhava no escritório de Ramos de Azevedo, o arquiteto uruguaio que fez grande parte dos prédios que marcaram a ascensão da vila colonial atrasada do tempo do Império para uma cidade em pleno crescimento, a ponto de se tornar a metrópole que “mais cresce no mundo”. Seu Pereira era um jovem idealista de sangue quente português, em 1910. Já tinha economias guardadas pensando em abrir uma empreiteira, e conhecia muita gente, como um bom cidadão do Bom Retiro, que era.
Pois no Bom Retiro é que a cidade acontecia de fato. Era ali que chegavam as levas de imigrantes, era ali que as notícias primeiro se anunciavam, era ali que o povo paulistano ia cuidar da saúde e, finalmente, era ali que os sonhos eram sonhados, por estes que se exauriam nas doze horas de labuta incessante e diárias.
Miguel Bataglia havia sido operário, mas o idealismo que fazia com que os operários se mexessem, exigindo os devidos direitos, fez com que ele se refugiasse na profissão de alfaiate. Seu irmão, Salvador, abrira uma barbearia. E todos no Bom Retiro, e mesmo os barões dos Campos Elíseos, ou dos casarões da Bela Vista, iam até a alfaiataria de Miguel, de forma que quase tudo o que era dito na cidade – pelo menos tudo que se dizia abertamente, e outras coisas mais que não se podia dizer – era dito naquele estabelecimento, e distribuído ao povo, que freqüentava a barbearia, através de Salvador. Sendo assim, também não é por acaso que os dois irmãos tenham se tornado peças fundamentais na concretização do Sonho.
Mas o Sonho de emancipação trazido pelo Cometa se utilizou de uma grande desculpa para acontecer.
Não por acaso falamos do Guaré, a Terra Alagada, a grande Várzea. Pois era ali que o povo trabalhador podia, nas poucas horas dominicais de descanso da labuta incessante, ter seu momento de emancipação, antes de acordar no dia seguinte e reiniciar a massacrante labuta. O velho Jardim do Guaré se transformava em descampados planos onde se praticava o Futebol. E o povo criava seus times de rua, de bairro, de fábrica, e faziam festa nos confrontos que se marcava para esses domingos. Antes dos jogos, faziam pic-nics, churrascos, Festa com música, artistas se apresentavam, e o povo confraternizava.
Essas festas eram promovidas, em sua maioria, pelos sindicatos autônomos que se estabeleciam, comunistas e anarquistas, e havia inclusive uma séria discussão acerca do fator de divisão que o Futebol causava. Pois os ânimos se exaltavam, brigas aconteciam, e eram levadas para dentro do movimento. Alguns diziam que o Futebol cindia o povo!
Mas aqueles que sonharam a grande Utopia pensavam justamente no inverso disso. A Utopia quis reunir todos numa Luta, e assim o fez. Assim, antes mesmo de ser uma Torcida que criou o próprio Timão, num movimento que nenhuma outra agremiação conseguiu fazer igual, sequer semelhante, e que demonstra a Força do Sonho, a Utopia se concretizava como um pequeno anarco-sindicato, sonhador, utópico, cuja missão era a de devolver o Futebol ao Povo. Pois os barões achavam que seus campos e sua Liga eram onde se praticava o “futebol”, mas o Povo sabia que Futebol mesmo acontecia na Várzea.
Para isso, antes mesmo de chegar o Embaixador do Esporte Bretão, o Corinthian Football Club, os que sonharam juntos sob o brilho fulgurante do Cometa se articulavam nas ruas, nos bairros e nas fábricas para concretizar este anarco-sindicato, antes mesmo de concretizar a Seleção Varzeana em campo. Mas do anarco-sindicato até o Timão em campo, existe um longo caminho, uma grande teia de ações e relações que foi instituída para que acontecesse o Clube do Povo, que não tinha dinheiro nem pra comprar as meias, naquele inverno de 1910 que já transcorria…
Filipe Gonçalves