Terceiro Capítulo

O Corinthians é a multidão de pessoas que fazem o Corinthians, e é assim desde aquele mês de maio de 1910. A Idéia Viva foi iluminada pelo clarão do Cometa, a Utopia brotou, e a teia de relações para fazer acontecer o maior anarco-sindicato já visto por aqui foi acontecendo naturalmente. A vontade geral prevaleceu, enquanto transcorria o inverno, e de rua em rua, de fábrica em fábrica, de bairro em bairro, o Clube do Povo foi galgando espaço e sendo conhecido – antes mesmo de existir de fato.

Rapidamente, então, chegou aos ouvidos dos irmãos Bataglia essa vontade popular de criar um Clube do Povo, e dos grandes amigos de Miguel, Alexandre Magnani foi quem mais se encantou com a idéia. Se o Pereira e os Bataglia conheciam muita gente, e gente importante tanto quanto gente humilde e trabalhadora, Alexandre Magnani conhecia tanto quanto ou até mais, por causa de sua profissão. Era cocheiro de tilburi, o equivalente a taxista hoje em dia, e seu ponto ficava do lado da Estação da Luz. Os barões do café, quando vinham para capital, iam para o centro da cidade, nos hotéis e cafés da XV de Novembro, no cocho de Magnani. E se o Bom Retiro era aonde primeiro chegavam notícias do mundo afora, boa parte delas seguiam pelo cocho. E Magnani foi, de saída, um dos grandes propagadores da Utopia, e ele próprio convenceu muita gente falando do Clube do Povo que não tem patrão, apenas o Povo exercendo sua emancipação. E com isso convenceu os trabalhadores, que como ele, não tinham patrões e eram donos de seus próprios narizes, bem como os operários e serviçais que tinham seus patrões – e desejam acima de tudo esta mesma emancipação.

As pessoas ouviam falar do Clube do Povo, e muitas aderiram à idéia. Mas já havia aquela gente que não suportava ouvir falar em emancipação popular, e disfarçavam o incômodo fingindo dar risada da idéia. De fato, muito avançada a Idéia…

Foi em uma dessas tantas conversar com o amigo Miguel que Alexandre, quase sem querer, instigou o Espírito Corinthiano dos primeiros tempos. Pois veio a ter com Bataglia, dizendo que aquele seria um Clube de Verdade. E Miguel respondeu algo como “Mas não tem nem de onde tirar dinheiro pra comprar as meias!”. “Se arruma!”

O “Se arruma” era o próprio vislumbre dessa teia de relações que já estava formada. Entre eles, havia Rafael Perrone, que era sapateiro, Joaquim Ambrósio era, ao lado de Pereira, pintor de paredes, Anselmo Correa era motorneiro de bonde e João da Silva era pedreiro. Foram estes considerados, depois, os Cinco Fundadores. Mas nesta perspectiva que tecemos aqui, com relação a essa teia de relações, podemos dizer que os Fundadores eram muitos mais. Por exemplo, o ferroviário Jorge Campbell espalhou a idéia pelas estações e pelos trilhos dos trens, enquanto Felipe Valente espalhava pelas fábricas. E muitos outros chegavam para compor o grupo, antes mesmo do Clube de Verdade se firmar e acontecer de fato.

Foi nessa época que o Delegado Franklin de Toledo Pisa recebeu um ofício superior determinando o fechamento de uma associação de “arruaceiros” da Várzea do Bom Retiro. E foi falar com aquele pessoal do Botafogo da rua Paula Souza. Pela enésima vez, aliás, pois tantas foram as vezes que um jogo do Botafogo tinha descambado para a briga, que Franklin precisou de toda a paciência para chegar ao Capitão Cesar Nunes e tentar convencê-lo de que a coisa ali naquele ofício era muito séria.

O Delegado gostava de assistir Futebol, era amigo daquela rapaziada, e acima de tudo, conforme todos ali disseram e nos deixaram documentado, ele tinha um bom coração. E sabia que a Idéia Viva estava correndo solta. Partiu dele, portanto, a aproximação desses boleiros com a turma que queria fundar um Clube de Verdade.

Disse para eles mais ou menos o seguinte; “Olhem, vou precisar fechar o Botafogo, mas não quero ver ninguém aqui chateado comigo. Vocês precisam de um cérebro para esse coração indômito que vocês têm. E tem um pessoal querendo fundar um Clube, e eles tem a Idéia de ser um Clube de Verdade. Vão lá conversar, vocês poderão se ajudar uns aos outros, e me ajudar também, pois se não cumprir esse ofício a coisa vai ficar feia pra mim, e pra vocês. Entenderam?”.

Diante do desafio do Delegado, Cesar Nunes respirou. Pensou. E respondeu mais ou menos nesses termos; “Vamos lá, sim, Seu Franklin, deixa com a gente. Mas ninguém vai fechar o Botafogo, não!”

De fato, o Botafogo só veio a encerrar seu quadro muito tempo depois, mas isso deixaremos para contar em outro momento. Mas o pessoal do Botafogo, assim como do Domitila, do Tiradentes e de outros tantos Clubes da Várzea, já estavam rondando a Idéia Viva, antes de acontecer de fato.

Foi assim que as coisas estavam quando a notícia da chegada do Embaixador do Esporte Bretão chegou aos ouvidos de Alexandre Magnani, e dali, para a barbearia do Bataglia, e para o Bom Retiro inteiro, em questão de minutos. Diziam que os ingleses haviam aceitado o convite do SPAC, o São Paulo Athletic Club, e que estavam para desembarcar na Estação da Luz na manhã do dia 30 de agosto de 1910. Depois de golear o elitista Fluminense por 10 a 1, um combinado carioca por 8 a 2 e um “selecionado brasileiro” por 5 a 2, no Rio de Janeiro.

Naquela manhã, quem pôde comparecer nas festividades de recepção para os ingleses, viu uma festa digna do porte do Embaixador Corinthian Football Club. Alexandre Magnani, os irmãos Bataglia, entre outros, estavam ali, naquela terça-feira, pois eles não tinham patrões. E a grandeza do Embaixador chegou à Idéia Viva naquele mesmo instante. Depois do brilho fulgurante do Cometa, o Embaixador foi a grande inspiração para a Utopia…

Anúncios

Uma resposta

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s